sábado, 15 de dezembro de 2007

Ordenada da Fé


De menos infinito à origem

O ser humano, se sabe, é detentor do maior potencial intelectual dentre as formas de vida que habitam o planeta Terra. Esse potencial é tão copioso, que dá ao homem peculiaridades notáveis. Dentre elas, conscientizar-se de sua própria e factual (?) existência; conceber a matemática; relacioná-la aos fenômenos para explicá-los (física!); conceber o tempo e sua inexorável cadência; e – talvez a mais fundamental – questionar-se acerca da razão da existência de todas essas “coisas”. Diante deste mistério basilar, houve quem primeiro atribuísse o fato a algum ser obviamente anterior ao homem, e supostamente dotado de capacidades superiores, dentre as quais o dom da criação. O sucesso alcançado por essa fascinante elucidação encontrou alicerce em um fato curioso: a capacidade de se provar a sua validez é absoluta e irrevogavelmente equivalente à capacidade de se provar o contrário. Ou seja, nenhuma. Eis o surgimento da fé. Contudo, dado o caráter materialista dos seres humanos, diversas entidades do mundo visível foram relacionadas ao Ser superior, em diferentes civilizações e períodos históricos, para dar-lhe uma forma; uma ingênua tentativa de tangenciá-lo. Animais, astros celestes, fenômenos da natureza, indivíduos ilustres, etc., são exemplos de modelos que, ao longo dos séculos, foram credenciados como a manifestação da Divindade. Entretanto, à medida que a ciência evoluía, desvendando os fenômenos naturais, esses modelos tinham que ser substituídos por outros novos, mais robustos e menos explicáveis, porém essencialmente equivalentes em respeito ao caráter superior do Ser. Tal conjuntura parecia configurar um interminável impasse entre as formas de Deus e a ciência – ora surgindo uma nova forma, ora surgindo uma nova desmistificação desta –, mas que naturalmente alcançou uma solução singela: atribuir-se um caráter subjetivo à forma de Deus, de modo que a ciência não lhe possa afetar, uma vez que o domínio da mesma não abrange o mundo subjetivo. Ora, isso é formidável! Este arcabouço de idéias dá suporte a que o homem preencha satisfatoriamente o seu vazio existencial, explicando desde o cosmos infinito, até a origem de todas as coisas.


De mais infinito à origem

A ciência é como os cavalos; teve sua fase de potro, frágil e cambaleante, ainda descrente do potencial de suas franzinas patas em prover-lhe sustentação; e muitas foram as quedas, os tropeços, os ensaios de galope, que ao longo dos anos atribuíram-lhe vigor, experiência e compasso de corcel, com tamanho encorpo e firmeza, que assim como os cavalos, pôde sustentar não apenas a si própria, independentemente, como passou a carregar consigo o homem, em marcha cadente, permitindo-lhe angariar o mundo e suas maravilhas.
E é assim, montado na ciência e firme de suas rédeas, que o homem avança campina adentro, descobrindo e desvendando os misteriosos fenômenos que o rodeiam. Foi assim que os gregos apreciaram as formas geométricas; Aristóteles enxergou a natureza esférica da Terra; Copérnico e depois Galilei nos mostraram o heliocentrismo; Newton legislou sobre a mecânica dos corpos; Kepler, sobre a celeste; Maxwell revelou-nos a essência do eletromagnetismo; Pasteur trouxe luz aos microorganismos; Darwin articulou o motor da vida; Demócrito, Dalton, Thompson, Rutherford, Bohr, Summerfeld, cada um com uma parcela, conceberam o átomo; Hubble verificou a expansão do universo; Einstein tornou-o relativo; Heisenberg, incerto. E foram estes dois últimos que a mais próximo da elucidação final trouxeram o vistoso corcel científico. A teoria da relatividade geral de Einstein consegue explicar tudo que é muito grande (estrelas, planetas, galáxias...), mas falha ao penetrar no universo das coisas diminutas (átomos, elétrons, quarks...). Nesse território, quem impera é o princípio da incerteza de Heisenberg, que nos impede de conhecer, com exatidão e ao mesmo tempo, duas variáveis de estado inerentes a alguma partícula, como a velocidade e a posição. Temos então uma lei que governa sobre as coisas grandes, e outra sobre as minúsculas. Bastaria, portanto, combiná-las para que tivéssemos uma lei geral, que explicaria tudo (magnífico!). Infelizmente isso não se mostra possível; ambas as leis não se compatibilizam, não se associam, e quando tentamos forçá-las a tal, perdem-se no absurdo. Eis um agravante: Hubble (o mesmo supracitado), ao estudar as distâncias entre as galáxias, percebeu que estas estavam se afastando. A partir daí, não foi difícil concluir que se estavam se afastando, num passado remoto já estiveram próximas, muito próximas. Assim surgiu a teoria do Big Bang, que nos diz que todo o universo, em sua gênesis, esteve completamente condensado em um único ponto, infinitamente pequeno e com densidade infinita, ponto este chamado de singularidade. Ora, isso é justamente a união do muito grande (universo) com o muito pequeno (singularidade). Exatamente a junção que nos escapa; o limiar aparentemente intransponível ao nosso corcel, diante do qual este titubeia impotente. Resta-nos, então, tomar à mão a história de sucessos de nossa montaria; verificar-lhe a incontestável perspicácia e inexorável determinação, que sempre a acompanharam; e, em posse dessa respeitosa biografia, confiar que este corcel um dia subjugará o obstáculo. É nesse instante que a ciência toma aspecto de religião, prescindindo de nossa fé - o que nos revela a equivalência entre ambas as abscissas. Novamente uma questão que envolve a solitária e auto-suficiente fé; fluido que parece permear a natureza humana.


Considerações sobre a origem

Sendo a origem o exato instante que separa a não existência da existência de todas as coisas, supõe-se ter havido algum elemento/fenômeno/entidade que, mesmo sem também existir, pôde operar o nada, convertendo-o em algo. Diante desta baboseira, concluo sugerindo uma possível correlação desta questão com a divisão de algum número real por zero (lê-se "origem").

5 comentários:

Felipe disse...

Quanto a estética da linguagem, não mais preciso falar à respeito dos textos de vocês dois. Até pela paciência de ler obras literárias chatas, já dominam a arte de "escrever bonito". O texto está bem escrito, como eu já imaginava. Destaque para a analogia entre a ciência e o cavalo.

Quanto ao conteúdo, não foi bem o que eu esperava. Escreveu várias coisas óbvias, se ateve quase que apenas aos fatos, assemelhou-se a uma aula de história. Mas talvez a culpa dessa decepção seja minha mesmo, uma vez que, de um tema como fé eu esperava um pouco mais de polêmica, um posicionamento mais firme de quem escreveu o texto.
Ou seja, não é que esteja ruim, eu apenas tinha outras expectativas.

Você se saiu melhor com o texto anterior, o conto.

E, de qualquer forma, parabéns pelo texto. :)

Felipe disse...

Ah, e vocês precisam atualizar essa porra com mais frequência!!

Marraus disse...

Ahauhuhuuuhu

Solapante, meu caro.

Vale citar alguns solecismos, entre outras incorreções, as quais farei via orkut.

Marraus disse...

O alvitre final � um p�rola, brumadense.

Gabriel disse...

preguiça pra ler... escrevam coisas legais!

mas ainda vou ler depois...