terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Ônãufebétu


Laís pediu-me para redigir uma redação (comecei bem, hã?) que tratasse d' "O analfabetismo no Brasil. Não sei onde ela tinha posto a cabeça ao me fazer tal requisição: ora, não mais freqüento pré-vestibulares; devo ter-me esquecido daquelas "mainhas" de professor de cursinho pré-vestibular; técnicas bem rudimentares, posto sejam deveras eficazes. Quesnay revolve-se em seu enfadonho sepulcro de modo a ajustar o mínimo de audibilidade no seu eterno aposento, lá nos cafundó... do dito cujo, claro. Poder-se-ia calar; mas a língua coça - sarna maldita. Enfim, como um excelente redator de redações - aquele que não foge do tema, ao menos -, vou-me ater ao que me dispus quando aceitei-lhe o desafio e quando resolvi ficar acordado até essa hora (maldito seja o tempo, a velocidade e todas essas variáveis físicas que fazem o relógio andar com os próprios pés e atropelar nossas aspirações).



Todo indivíduo analfabeto está deveras fadado ao pior que a Humanidade lhe reserva: a exclusão. E é em tempos modernos correntes que esse fenômeno social torna-se cada vez mais crônico, haja vista a evolução arrebatadora das Ciências e o rítmo frenético pelo qual subscrevem-se as inovações tecnológicas.
De acordo com Silveira Bueno, analfabeto define-se como todo aquele que "não sabe ler e escrever". Tal estirpe de inferência mostra-se deveras anacrônica, resguardando-a por eufemismos. Cá no Brasil, foi-se o tempo em que bastava ao cidadão deitar ao cheque - ou qualquer outra espécie de documento - sua assinatura e lá já poder-se-ia considerar um indivíduo alfabetizado, em pleno gozo dos direitos que as Leis lhe reserva. Já não são mais desse século os coronéis que impunham aos seus cativos - inclua-se ai a mão-de-obra compulsória remanescente do regime trabalhista anterior; os apadrinhados, que cambiavam seu dispêndio em energia física por remuneração em benefícios etc. - o voto de cabresto, lastreado numa comprovação inverossímil, porém irrefutável, do nível de alfabetização do indivíduo, que o qualificasse como capaz de integrar a fatia da população sufragista. Os séculos prosseguiram sua cavalgada no tempo, e hoje não só basta ao cidadão submeter-se a um sistema de qualificação aos moldes daquele supracitado: o processo de Alfabetização tem que fundir o procedimento clássico de educação à inclusão digital.
Eis a internet. Nunca no mundo pôde-se produzir, divulgar e ter acesso ao nível de informações que há em cirulação atualmente. Por meio dela, pode-se satisfazer um grande número de necessidades, num intervalo de tempo imensuravelmente curto, em termos relativos. Através da world wide web, mesmo aquelas pessoas que possuem limitada capacidade de compreensão da língua, conseguem interagir com softwares que lhes permitem a prática de atividades que desenvolvem o racioncínio lógico, a concentração, o próprio exercício da leitura, haja vista que na telinha do computador as notícias, os anúncios, os textos, enfim, tornam-se mais atrativos e mais estimulantes. São incalculáveis as benesses que a internet e a tecnologia como um todo pode proporcionar à alfabetização do cidadão.
Portanto, não só o simples processo de aprendizado tradicional é fundamental na formação de um cidadão, mas sim a inclusão digital e a interação daquele com esta, de forma que possa surtir resultados mais eficazes no processo de alfabetização de cidadão, permitindo-lhe um completo desfrute do exercício pleno de sua cidadania.

domingo, 22 de junho de 2008

Ventos de outono


Sopravam os primeiros ventos mais frios do ano. Outono anunciava-se, e os mais frescos orvalhos daquela manhã escoavam às folhas da mangueira de São Coutinho da Ribeira. Não que seja relevante, em matéria cronológica, citar por que parcos destinos caminhava a humanidade, mas teimo em expô-los; sou prolixo, e o sou por pura casmurrice.

Era, então, fim de temporada no Brasil; pelo menos para as forças militares nacionais em expedição apaziguadora em Assunção; no parlamento, promulgava-se a lei de 28 de setembro, de fundamental relevância para a consecução da concretização da aquisição dos Direitos Inalienáveis do Homem pelos escravos negros, a saber, a propriedade privada, a liberdade etc; diziam-mo os ingleses. Paris rendia-se às coalizões proletárias para-militares socialistas e reduzia-se a um punhado de trincheiras mal guarnecidas da Comuna de 1871; enfim, os tempos andavam nos conformes.

Mas, ali, próximo à mangueira supracitada, Santiago e Guedes proseavam despretensiosamente sentados à cerca da fazenda Santa Maria do Oeste, destacada pelas volumosas safras periódicas de algodão, commodity responsável por 78% da receita de exportações da província de Pernambuco. Era dia de colheita, e eles entretiam-se a fazer ponderações acerca de temas diversos, tão difusos entre si que se dissipavam no espaço, assim como essas letras incoesas e ineptas perdem-se à ação inexorável do tempo e da latente imperícia lexical que me faz leigo delas. Cá, pois, recolhi um trecho dessa brincadeira, que, em minha opinião – Deus sabe! -, me foi mais interessante.

- (...) Toca-lhe à cintura. À medida que lhe vai percorrendo os braços, traz-lhe o corpo ao seu e sente-lhe o calor do cangote; encostem-se face a face, deleitem-se aos trastejos de vossas peles, cinjam-se às notas que lá tocam e a vós mesmos; à melindrosa harmonia que persegues.
Dada a devida consecução, deixa que o tempo mexa seus pauzinhos. Não há nada nesse mundo que se compare a tal regalo. Não concordas, primo?!

Santiago, ao mesmo tempo em que rompia com a imaginação da cena, meneava a cabeça positivamente, corroborando a autenticidade das idéias de Guedes, mesmo que nunca tivesse tido nenhuma experiência semelhante. Mantinha o olhar fixo, sedento por aquelas coisas novas de outrora tão incestuosas, que lhe faziam irromper um desejo voraz, quase inconsciente por mais informações, que, como se sabe, é outra commodity de grande valor no mercado.

Guedes, a parte de todo esse emaranhado de conjecturas que se fazia o primo, continuou seu discurso:

- A música que vos acompanha tem que ser deveras de bom alvitre. Mas, se me permite acrescentar, primo, ainda há mais que isso. Há mais quando tens la chica de costas a ti. Acomoda-lhe o bucho às espáduas, ao passo que lhe envolve tensamente à pélvis. Em pouco tempo, vossos braços, mãos, dedos estarão manietados numa só hera-de-inverno, tal qual as tranças de Rapunzel. Daí, põe-lhe o queixo ao ombro enquanto seu perfume entorpece-lhe. Que achas?

- Confesso-lhe que fiquei tentado, Déco, redargüiu Santiago, à medida que as formosuras de Anastácia iam-lhe dobrando a consciência e os sentidos. Dado o hiato no cotejo, entre ambos, do gosto no trato feminil, vislumbrou ele o momento que se veriam novamente. Que não tarde a noite, pensou consigo. Pensou naqueles olhos, ora castanhos, ora esverdeados, mas tão singelos e puros que lhe tolhiam toda e qualquer espécie de rancor e ressentimento; suspirou àqueles lábios pequeninos e discretos, mas tão doces e tenros como o fruto da querida e generosa mangueira que lhes proviam sombra e conforto (mas a isto só podia mesmo caminhar nos campos das ponderações); não se esqueceu daquele perfume, que, combinado às supracitadas qualidades da moça, sem exagero da expressão, era um feitiço; síncope que lhe tomava as faculdades mentais, posto que lhe trouxesse ânimo sem igual. Para tanto, levava sempre consigo um pedacinho daquele cheiro ao fraque de lã, que não ousava lavar e que não trocava há dias. Amostra essa que foi colhida a muito custo, haja vista que lhe foram necessárias burocráticas conjecturas, até que um surto de intrepidez desponta-se-lhe a parcimônia, ditadora de longas datas, o ímpeto lhe tomasse as pernas e destronasse a hesitação letárgica na qual estava imerso, fazendo-o cumprimentar a filha do coronel Firmino Fernandes de Albuquerque - senhor de um mundo de terras no interior pernambucano - naquela festa que dera este, em anúncio à grande safra que estava por vir.

Não sabia se todo esse embaraço sentimental era obra daquele perfume. Argüia-se se o que sentia era mesmo o que sentia, a despeito do teor entorpecente do mesmo, muito embora não estivesse tão interessado em desvendar esse feitiço; orçarva pelo irracional que lhe cingia o juízo àquele cheiro. Ademais, Guedes não o havia citado à toa; imputou leviandade do primo, que já devia suspeitar do seu desejo pela Anastácia, mesmo nunca a tendo mencionado à sua presença. Concluiu, todavia, que era mera coincidência.

Desta vez, Guedes não pôde ignorar a contemplação astronômica que Santiago fazia daquela noite de céu estrelado, que já sucumbia aos primeiros raios solares; estes timidamente iam ocupando seus devidos acentos.

- A que galáxia tu estás, primo? Aposto que estavas a pensar na filha do coronel, engatilhou Guedes.

- Sim, confessou acanhadamente Santiago, esbanjando todo o pudor que tinha por aqueles pensamentos.

- Seja cauteloso. Mente feminina, há muito que não é relvado para qualquer um, quiçá para um pupilo das artes do cortejo como tu. E, como sabes, ela está de casamento marcado com Manuel Mendes Cordeiro, filho de Alfredo Mendes Cordeiro, dono da maior casa comissária de Recife, a Mendes Cordeiro S/A. Sugiro-lhe que não percas teu tempo; não há muito a ser feito.

Santiago sabia que Guedes não mentia; ao inverso, era pura verdade o que dissera. Não poderia tê-la, de jeito maneira. Não tinha muito que oferecer, senão todo o afago do seu abraço e o calor do seu fraque de lã, e tudo aquilo que guardava a custo de muita angústia embaixo da pele. Embora houvesse tanto a ser dito, estava decidido, sôfrego, mas decidido: não devia mais procurá-la; optaria pela prudência. Não cabia a ele fazê-la feliz. Destarte, poupar-lhe-ia o sofrimento da insistência de uma batalha desertada.

Santiago mal concluíra seu monólogo mental no qual baseara seu parecer final acerca das questões amorosas que lhe intumesciam os neurônios, quando de lá viam em comboio os escravos da fazenda, custodiados pelos capatazes do coronel, iniciar a colheita. Seria um longo dia.

Já então se podia avistar o Sol majestoso devolver a noite às sombras. Aos poucos, os músculos da testa contraíam-se-lhes em protesto aos raios solares que lhes afetavam a vista. Dava-se então, burocraticamente, continuidade ao protocolo dos dias.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Concreto e o Cristal



Da labuta natural em ternos anos
Do cuidado magistral da terra viva
Que entrega-nos o cristal de suas entranhas
Delicadeza de beleza tão altiva

De tantos calos e do suor que desce à face
Do equilíbrio singular dos elementos
Se faz penoso o concreto ainda cru
Que envelhecido não cairá ante um tormento

A reluzência custa um preço ao cristal
Para lapidá-lo se há de ter sutil talento
Já o concreto se faz mole para moldar
E não reluz, mas se secar resiste aos tempos

E assim suplanta a beleza do cristal
Pois nessa vida sempre sopram fortes ventos

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Eu


Primavera partiu, e como ela eu vi... a viveza da cor. O tempo passou e com ele eu fui... mudando de amor.A ferida sangrou, o mar poluiu, a tristeza espalhou.O sistema imperou, o circo fechou, a penúria está ai!...
O certo está incerto, a amabilidade rematou. O meu refugio é o meu deserto a minha paz interior. O meu gracejo inadequado é da genuinidade alheia; A minha indulgência obrigatória é que supôs a uma falha alheia.
Alentar-se há uma alternativa infinitamente prazenteira; E transformando-o continuamente os seus contentamentos transitoriamente. Igualar-se sem diferença de crença ou primor; Amando-os sem distinção de raça ou credor.



“Com o passar dos anos tudo tende a mudar, esperamos que alguém nos dê a solução dos problemas, que o tempo volte, que eternamente estaremos em busca de algo melhor, e sempre procurando entender as ações dos outros. Podemos observar que aquilo que nós pensamos em ser, n é nada daquilo que nós somos realmente, que do melhor as coisas estão indo a pior; procuramos sempre o prazer momentâneo o prazer inadequado da sinceridade alheia, que os erros estão ai pára serem confessados e não ocultados... Que os tempos de outrora eram bem melhores que este, e que este eu percebeu isto conforme sua maturidade. Quando criança, tudo nos parece belo, não é mesmo?" Esta é a estória do “eu”, este "eu" somos todos nós..."




[Carlos Crysostomo jr.(Zé)]

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Coisas da vida


Muitas coisas marcam as nossas vidas. Mesmo que sejam besteiras ou grandes coisas, possuem grande importância para nós!
Irei contar-lhes uma história bem simples, mas com uma mensagem importante.
A minha vida sempre girou em torno do meu trabalho, não tenho filhos, mas preciso trabalhar bastante pra levar a minha vida normal. O meu trabalho é algo tão simples, mas de imenso significado para mim; eu trabalho como pedreiro e sempre construir pequenas casas. Não consigo ficar sem fazer nada, pois quando não tenho nenhum trabalho para fazer, saio pela minha comunidade oferecendo ajuda em qualquer tipo de serviço. Eu falei tanto do meu trabalho assim porque tem a ver com a história que vou contar agora.
Um dia um rapaz veio até minha casa, e me ofereceu uma oferta de emprego na construção de um prédio, eu até estranhei me procurarem para fazer esse tipo de trabalho, mas eu aceitei a oferta. Trabalhava normalmente todos os dias, sempre na mesma rotina, até que um dia eu comecei a reparar na beleza daquele prédio, aqueles dias de trabalho tem valido a pena, era algo realmente lindo. A cada dia que passava eu ficava lá por mais uma hora após o meu trabalho e ficava pensando como é tão interessante a gente construir as coisas aos poucos e ver como aquilo vai se tornando algo tão belo e especial.
Certo dia, eu percebi que aquele prédio estava quase pronto e desde já me batia uma saudade imensa, pois não trabalharia mais nele, e a vontade que eu tinha era de ter aquele prédio todo só para mim, mas não tinha condições nem para comprar um apartamento nele.
O último dia chegara, parecia a despedida de um ente querido, a dor era imensa, e o mais incrível era que uma coisa tão simples tocava tanto na minha vida. Não tive vergonha de chorar, estava sozinho no prédio, todo completo, e já tinham se passado quatro horas após o término da construção, e mesmo assim eu não sentia vontade alguma de sair dali. Chegou o momento que eu decidi sair, sabendo que nunca mais poderia entrar naquele palácio, mas eu sempre passaria a frente dele e apreciaria aquilo todo dia.
Minha rotina se tornou constante, todo dia eu trabalhava, via o prédio e ia pra casa, a vida que eu considerava boa. Quando um dia eu passei pelo prédio e percebi uns movimentos estranhos, tanta gente, eu fiquei bastante agoniado, e só consegui ver quando me aproximei, eu vi aquela cena que nunca sai da minha cabeça, foi um momento inesquecível, eu fiquei parado por uns dez minutos sem falar nenhuma palavra, tudo isso porque tinha desabado o teto do ultimo andar.
Por muitos dias, eu evitei passar pelo prédio, não sabia se tinham consertado ou se tinham demolido, não sabia nada, só pensava em quem podia ter errado na construção; alguém errou, pode ter sido eu, ou qualquer um, mas foi alguém.
Eu estava saindo do trabalho e indo para casa, só que senti algo estranho, me deu uma vontade de passar pelo prédio, não sabia se ia ou não, pensei, e fui lá. Quando cheguei me senti surpreendido, aquela sensação de déjà vu, eram muitas pessoas em volta do prédio, como no dia em que desabou, então eu me aproximei, e vi bastantes maquinas, mas não entendia nada, então perguntei o que ocorria, e me disseram que iam demolir o prédio, foi estranho, não senti tristeza nem fiquei calado, foi tudo normal, fiquei até o ultimo pedaço cair ao chão, até a ultima pessoa ir embora; foi uma despedida inesquecível, eu me aproximei, peguei um pedregulho que pertencia ao prédio, levei pra casa e refletir bastante naquela noite.
“É tão engraçado como as coisas demoram tanto para se construir, e por algum pequeno erro, aquilo tudo vai embora de um jeito tão rápido”
(Gabriel Peixoto)

sábado, 12 de janeiro de 2008

O rebento mestrio


Como tudo mudou
Um presente eu ganhei
Infinito é o amor que por ti eu terei.
Vital como uma flor que engrandece um jardim
Uma jóia em que eu comedido sorri.
Perfeição eu busquei, incansável chorei, solução eu não vi, relutante sorri.
Primoroso é o amor, seu amado serei; incompreensível fui eu que a vi e a deixei.
Quem criou o amor esqueceu de avisar que nele há razões da gente pecar.
O Amor é claro e nítido, é como à água: imprescindível pra quem tem sede, e insípida pra quem não tem.
É como uma chuva de verão que logo-logo vai passar; como o orvalho da manhã que flui lentamente ao ar.
O Amor não se vê, mas se sente;
O Amor não se escolhe, mas pressenti-se.
[Carlos Crysostomo jr.(Zé)]

sábado, 15 de dezembro de 2007

Ordenada da Fé


De menos infinito à origem

O ser humano, se sabe, é detentor do maior potencial intelectual dentre as formas de vida que habitam o planeta Terra. Esse potencial é tão copioso, que dá ao homem peculiaridades notáveis. Dentre elas, conscientizar-se de sua própria e factual (?) existência; conceber a matemática; relacioná-la aos fenômenos para explicá-los (física!); conceber o tempo e sua inexorável cadência; e – talvez a mais fundamental – questionar-se acerca da razão da existência de todas essas “coisas”. Diante deste mistério basilar, houve quem primeiro atribuísse o fato a algum ser obviamente anterior ao homem, e supostamente dotado de capacidades superiores, dentre as quais o dom da criação. O sucesso alcançado por essa fascinante elucidação encontrou alicerce em um fato curioso: a capacidade de se provar a sua validez é absoluta e irrevogavelmente equivalente à capacidade de se provar o contrário. Ou seja, nenhuma. Eis o surgimento da fé. Contudo, dado o caráter materialista dos seres humanos, diversas entidades do mundo visível foram relacionadas ao Ser superior, em diferentes civilizações e períodos históricos, para dar-lhe uma forma; uma ingênua tentativa de tangenciá-lo. Animais, astros celestes, fenômenos da natureza, indivíduos ilustres, etc., são exemplos de modelos que, ao longo dos séculos, foram credenciados como a manifestação da Divindade. Entretanto, à medida que a ciência evoluía, desvendando os fenômenos naturais, esses modelos tinham que ser substituídos por outros novos, mais robustos e menos explicáveis, porém essencialmente equivalentes em respeito ao caráter superior do Ser. Tal conjuntura parecia configurar um interminável impasse entre as formas de Deus e a ciência – ora surgindo uma nova forma, ora surgindo uma nova desmistificação desta –, mas que naturalmente alcançou uma solução singela: atribuir-se um caráter subjetivo à forma de Deus, de modo que a ciência não lhe possa afetar, uma vez que o domínio da mesma não abrange o mundo subjetivo. Ora, isso é formidável! Este arcabouço de idéias dá suporte a que o homem preencha satisfatoriamente o seu vazio existencial, explicando desde o cosmos infinito, até a origem de todas as coisas.


De mais infinito à origem

A ciência é como os cavalos; teve sua fase de potro, frágil e cambaleante, ainda descrente do potencial de suas franzinas patas em prover-lhe sustentação; e muitas foram as quedas, os tropeços, os ensaios de galope, que ao longo dos anos atribuíram-lhe vigor, experiência e compasso de corcel, com tamanho encorpo e firmeza, que assim como os cavalos, pôde sustentar não apenas a si própria, independentemente, como passou a carregar consigo o homem, em marcha cadente, permitindo-lhe angariar o mundo e suas maravilhas.
E é assim, montado na ciência e firme de suas rédeas, que o homem avança campina adentro, descobrindo e desvendando os misteriosos fenômenos que o rodeiam. Foi assim que os gregos apreciaram as formas geométricas; Aristóteles enxergou a natureza esférica da Terra; Copérnico e depois Galilei nos mostraram o heliocentrismo; Newton legislou sobre a mecânica dos corpos; Kepler, sobre a celeste; Maxwell revelou-nos a essência do eletromagnetismo; Pasteur trouxe luz aos microorganismos; Darwin articulou o motor da vida; Demócrito, Dalton, Thompson, Rutherford, Bohr, Summerfeld, cada um com uma parcela, conceberam o átomo; Hubble verificou a expansão do universo; Einstein tornou-o relativo; Heisenberg, incerto. E foram estes dois últimos que a mais próximo da elucidação final trouxeram o vistoso corcel científico. A teoria da relatividade geral de Einstein consegue explicar tudo que é muito grande (estrelas, planetas, galáxias...), mas falha ao penetrar no universo das coisas diminutas (átomos, elétrons, quarks...). Nesse território, quem impera é o princípio da incerteza de Heisenberg, que nos impede de conhecer, com exatidão e ao mesmo tempo, duas variáveis de estado inerentes a alguma partícula, como a velocidade e a posição. Temos então uma lei que governa sobre as coisas grandes, e outra sobre as minúsculas. Bastaria, portanto, combiná-las para que tivéssemos uma lei geral, que explicaria tudo (magnífico!). Infelizmente isso não se mostra possível; ambas as leis não se compatibilizam, não se associam, e quando tentamos forçá-las a tal, perdem-se no absurdo. Eis um agravante: Hubble (o mesmo supracitado), ao estudar as distâncias entre as galáxias, percebeu que estas estavam se afastando. A partir daí, não foi difícil concluir que se estavam se afastando, num passado remoto já estiveram próximas, muito próximas. Assim surgiu a teoria do Big Bang, que nos diz que todo o universo, em sua gênesis, esteve completamente condensado em um único ponto, infinitamente pequeno e com densidade infinita, ponto este chamado de singularidade. Ora, isso é justamente a união do muito grande (universo) com o muito pequeno (singularidade). Exatamente a junção que nos escapa; o limiar aparentemente intransponível ao nosso corcel, diante do qual este titubeia impotente. Resta-nos, então, tomar à mão a história de sucessos de nossa montaria; verificar-lhe a incontestável perspicácia e inexorável determinação, que sempre a acompanharam; e, em posse dessa respeitosa biografia, confiar que este corcel um dia subjugará o obstáculo. É nesse instante que a ciência toma aspecto de religião, prescindindo de nossa fé - o que nos revela a equivalência entre ambas as abscissas. Novamente uma questão que envolve a solitária e auto-suficiente fé; fluido que parece permear a natureza humana.


Considerações sobre a origem

Sendo a origem o exato instante que separa a não existência da existência de todas as coisas, supõe-se ter havido algum elemento/fenômeno/entidade que, mesmo sem também existir, pôde operar o nada, convertendo-o em algo. Diante desta baboseira, concluo sugerindo uma possível correlação desta questão com a divisão de algum número real por zero (lê-se "origem").

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

1998



Iam-se, então, 1998 anos desde o nascimento de Cristo. Estava eu a cursar a quarta série do ensino fundamental (ou médio 1º cíclico, para os velhinhos). Era um ano que se demorava a passar, assim como todos os anos letivos do Sistema escolar nacional de Educação.
Eram tempos de mudanças: FHC reelegia-se presidente da República, César Borges assumia o Governo estadual da Bahia, apareciam-me os primeiros pêlos pubianos, e com eles outros olhares, agora norteados por um sucinto e incipiente instinto reprodutor.
De mim poder-se-ia dizer, em suma, um jovem acanhado; assim como se diz daqueles que não foram agraciados pela simetria das formas físicas. Tinha a estatura não muito comum à minha idade, era corpulento, posto que dotado de relativa agilidade, possuia um sorriso papalvo, não menos atraente do que o sorriso daqueles que sofrem de incorreções ortodônticas; perdia-me de deleite sob o vício de joguinhos eletrônicos, e quando havia coro, dedicava-me, como se fosse o último, ao "baba na garagem", de onde aprendi diversas sensações e emoções, apesar de nunca ter sido educado em tais matérias.
Foi ai, desse jeito que me iam as coisas, quando recebi o meu primeiro estímulo tácito, que se traduziu numa latente alteração do comportamento da minha genitália. E não foi com uma fêmea da minha idade, como presume a leitora mais perspicaz. A minha primeira experiência como macho foi proporcionada pela minha professora, mais precisamente por suas vistosas, opulentas e voluptuosas ancas. Explico-me. Éramos eu e meu colega, do qual não tenho mais notícias, os infratores da moral e da ética - palavras essas que a nós não nos alcançavam os seus significados, sobrando-nos apenas a honradez de curvar-nos diante da soberba e da autoridade dos adultos, que as proferiam com bastante desenvoltura. O local do delito era a nossa sala. Esta se compunha de uma estrutura não muito ampla, o que acabava por produzir, haja vista o excesso na oferta de carteiras, "corredores" pelos quais transitavam os transeuntes. O plano consistia no seguinte: burlávamos a disposição das filas de carteiras, de forma que reduzisse a área de passagem da porta à mesa da professora; posicionávamos estrategicamente. Dessa forma a roçada era inevitável; induzíamos o contato com o tal do ventre professoral desejado dispondo nossas mãos na parte externa da carteira, então preparávamo-nos para aquele ir e vir de células adiposas glutéicas, que contemplavam-nos com momentos de prazer e lasciva.
Exceto pela percepção e decodificação do tilintar do sino que nos concedia a liberdade provisória, esse era o nosso momento de grande prazer; aquele que nos concedia horas de olhares perdidos no espaço e de noites perdidas em claro. Aquelas ancas; belas ancas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A SUA HORA CHEGOU!



Deveria ser umas sete da manhã, o alarme tocava sem parar, levantei e desliguei. Fui até a cozinha preparar um café da manhã, nisso não lembro mais que horas eram; a partir deste momento até mais a frente, fiquei sem saber as horas, então vou narrar os fatos por parte, mas não poderei dizer a que horas os fatos ocorreram.

Terminava de comer e me arrumava para sair. Tinha combinado com Leandro para fazer um trabalho para ele, não tinha marcado hora, pois ele disse para eu chegar à casa dele e chamá-lo, sem hora marcada. Quando cheguei lá, ele estava já no quintal e já foi mandando eu entrar no carro. Acelerou e seguiu a estrada... – Engraçado, pois nunca tinha visto aquele Corsa na casa de Leandro-. Eu estava com muito sono, ele dirigia, cada vez mais, e parecia que nunca ia chegar ao local, e eu ainda nem sabia onde era, e também não sabia o que eu iria fazer, só aceitei porque realmente eu precisava de dinheiro.

Quando chegou ao local, era uma casa humilde, com dois meninos brincando no quintal com pedaços de pedra, e aí que foi que tudo começou; Leandro falou para eu entrar na casa, procurar por Ricardo e depois espancá-lo até a morte com um pedaço grande de madeira. Eu ainda estava no carro perguntando o porquê daquilo, mas ele só dizia... -vai logo, pare de gastar meu tempo-. Então eu fui bati na porta e um dos meninos disse que eu podia entrar, então abri e entrei; como foi dito no trato, encontrei o tal Ricardo, o espanquei, me senti mal, nunca havia matado alguém antes-, então deixei ele vivo e voltei para o carro e disse... –vamos Fernando! Já matei, já matei!

Quando estávamos a caminho de minha casa, Fernando me perguntou umas quatro vezes se eu tinha verificado se realmente Ricardo estava morto, e eu respondi que sim todas as vezes, então ele me deu os R$550,00 e dirigiu até a minha casa.

Quando cheguei em casa foi meu momento de reflexão, comecei a pensar..- Ah que alívio, nem precisei matar o cara e ganhei o dinheiro... mas “peraê”, Fernando vai acabar descobrindo que eu não matei o cara... já Ricardo pode querer.... Ricardo... Ricardo... Caralho! Sabia que conhecia esse cara, puta que pariu, quando conheci Fernando ele mandou eu ir comprar umas armas para ele e quem me vendeu foi este Ricardo... eta porra, o cara é traficante... Meu Deus! O que eu faço agora?-. Então eu parei de pensar e sair imediatamente de minha casa, e fui para a casa de um amigo, um cara de confiança, o único que eu realmente confiava.

Quando cheguei à porta estava entreaberta, então eu entrei e me deparei com o corpo de Jorge caído ao chão da sala, com um tiro no peito. Naquele momento não sabia o que fazer, então liguei para Fernando e contei a verdade; Fernando estava uma pilha de nervos, e falou sem parar..-Não acredito, eu mandei você matar ele, agora ele vai saber que fui eu que mandei... ah não acredito! Ele vai matar meu informante, ele sabe quem é-. Então eu perguntei a Leandro quem era o informante dele, e quando ele disse que o informante dele era Jorge Souza Correia, eu fiquei pasmo, afinal o informante dele era o meu amigo de confiança, e já estava morto. Desliguei o telefone sai da casa de Jorge, e fiquei “zanzando” pela rua sem saber o que fazer.

Enquanto perambulava vi um corsa de placa JPD 1828, era o corsa de Leandro, estava estacionado, era o carro dele, eu tinha certeza, então comecei a me afastar do local, até levar um tiro pelas costas; cai no chão e olhava para aquelas pessoas a minha volta, até que vi duas pessoas conhecidas, um negro todo machucado, e um branco bem arrumado, eram Leandro e Ricardo, ambos com arma na mão, e eu pensava.. – Quem atirou em mim!?-. Então os dois se olharam e se atiraram, não vi quem foi atingido ou quem não foi, pois meus olhos vedaram-se.

Mais tarde eu me via numa maca em um hospital e finalmente consegui me informar de que horas eram quando ouvi a voz daquele Doutor vestido todo de branco, dizendo... – Paciente morto às quinze horas do dia 05/04/2007, Pablo da Conceição Menezes-. Pois é, Pablo da Conceição, sou eu, e aqui estou, não preciso mas correr atrás de tanto trabalho, pois este novo mundo não é capitalista não, agora vou apenas aproveitar o meu descanso... eterno.

Gabriel Peixoto

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Encontro das Águas


A mão de Carla executou um balanço frouxo, que em nada combinou com o sorriso terno transmitido ao namorado, quando se despediram no shopping. Atribuamos, amigos, a frouxeza ao peso da rotina que é a vida de um jovem casal, que já soma uns oito meses juntos, e à certeza do reencontro breve que esta rotina proporciona-lhos. Neste caso, a brevidade duraria até o final da tarde, quando Carla pretendia passar no cursinho que Rodrigo freqüentava, para dali voltarem juntos para casa. Do cursinho ao condomínio era uma caminhada curta e entretida.

Seguiu então, a garota, do shopping para a casa de Elô, onde haviam programado passar a tarde, estudando e conversando os assuntos que não couberam na pauta daquele dia, no intervalo do colégio. Coisas de meninas. De mulheres.

Chegando ao seu destino, já no play do Morada Verde, Carla agoniou-se ao se dar conta de que teria que mudar os planos: havia um elemento inesperado – pelo menos para ela – que inviabilizaria qualquer conversa mais íntima que pretendesse ter com a amiga e confidente. O elemento, que atendia por Matheus, primo de Elô, desculpou-se pela ausência de convite, advertindo que passava coincidentemente por aquelas bandas. Assim sendo, mudaram-se os planos.

Deu-se um processo lento até os três adolescentes conseguirem emplacar algum assunto menos burocrático no casual diálogo vespertino que os fora imposto. Saltemos, amigos, essa lentidão, com o pecado da descontinuidade e da vertigem, mas restituídos pela concisão e clareza. Digo clareza porque, com este salto abrupto, as saliências do contraste que se dá entre os diferentes estados da condição humana saltarão aos nossos olhos. Vamos à frente; à Carla de algumas horas e papos depois.

A mesma Carla cismada e agoniada da véspera, agora já não cabia em si de empolgações e receios pelas investidas voluptuosas do simpático rapaz, que parecia abster-se da inconveniência representada pelo compromisso da menina. Matheus tinha as manhas. A cada cantada que entrelinhava meticulosamente em suas palavras, e que eram amplificadas pela prima – pois sabemos, amigos, que é comum das primas ajudarem os primos a seduzirem suas desejadas amigas –, provocava em Carla um desejo tremendo pelo perigo; pelo proibido. Toda ela era uma intercalação de conjecturas acerca da traição, e lamentações agudas pelo compromisso que estava fadada a honrar, bem como uma autoflagelação mental a que se submetia, como espécie de castigo por se permitir pensamentos tão incestos. Carla estava um vulcão de idéias e ponderações. Mas o fato é que se permitia; se imaginava; mais que isso, desejava loucamente o primo da amiga. Tentou exaustivamente encontrar em si alguma cláusula, algum artigo do seu código pessoal – ou quem sabe dar-los uma nova interpretação – que lhe permitisse se jogar na aventura de cabeça, sem que a mesma viesse a sofrer mais tarde com a gravidade, por um inchaço de consciência. Não encontrou tal alento – deveras sentia asco pelo direito, por não saber lidar com suas maleabilidades – de modo que deu a si mesma o veredicto: não trairia; não convinha trair. Fez-se marquise de concreto, austera e resistente, até as cinco e meia. Ao cabo, despediu-se da amiga e do primo (a este, dedicou uma gota de melancolia no olhar), e foi-se, para dali encontrar com Rodrigo, como estava acordado.

Já entrando no cursinho, onde estava familiarizada devido à freqüência com que vinha ter com o namorado, Carla passou distraída pelos colegas de Rodrigo, que já estavam de saída. Parou à porta da sala dele, e assim permaneceu por um longo instante, a observá-lo. Rodrigo estava às sós com uma de suas colegas; justamente a que Carla detestava, por causar-lhe ciúmes. Como os observados falavam baixinho, quase a sussurrar, Carla não pôde ouvir que conversavam a respeito de uma aposta; uma que fizeram durante a aula e que garantiria como prêmio, para aquele que solucionasse corretamente o desafio de matemática, a satisfação de um desejo qualquer. Concluiste corretamente, leitor, se imaginaste que Rodrigo perdera a aposta. Sua colega estava a cobrar-lo; a requisitar-lhe um beijo como paga (o que esclarece-nos os fundamentos dos ciúmes de Carla). Rodrigo não hesitou; beijou-a brevemente, como quem aperta a mão após fechar um negócio. Virou-se no rumo da saída e deu de cara com a namorada, que o aguardava à porta. Fitaram-se um ao outro, atônitos, como um encontro de rios concorrentes; um dos olhares derramava serenidade e ternura, o outro, lamento e decepção.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

UNIVERSOS PARALELOS - TEORIA


UNIVERSOS PARALELOS - TEORIA

Bem, estou aqui para falar de universos paralelos. Não estranhem se eu não falar muito do assunto, ou se eu enrolar, pois é apenas uma tentativa. Com certeza haverá vários erros, pois não sigo as normas da gramática, enfim vou parar de enrolar e falar...

Você já deve ter sentido alguma vez, uma imensa vontade de voltar ao passado para corrigir um erro, pois está afogado em arrependimento, aliás você só se arrepende de algo, se este feito tiver uma conseqüência negativa para você. Então, você já imaginou se em algum outro lugar aquele vaso que você quebrou ainda está inteiro, se aquela nega que você tomou um fora é a sua mulher em outro lugar, já imaginou? Pois é, parece estranho, mas pode ser verdade.

Já vi em um lugar que partículas (acho que os elétrons são exemplos), podem estar em vários lugares ao mesmo tempo, ou seja, poderia estar em outras “dimensões”. Provar isso parece ser impossível, pois não passa apenas de uma teoria.

Tudo isso que eu disse parece estar indo por água abaixo, você deve esta pensando: isso é tudo loucura, mas ai que vem outra questão... Se você acredita no espiritismo, então os espíritos estão em nosso universo? Se eles existem, e não os vemos, então eles estão em outro plano, mas com alguma ligação ao nosso!

É esse foi o meu simples texto, não deu pra dizer muita coisa porque não veio muita coisa na cabeça... Mas é apenas o primeiro, quem sabe lá pra frente consigo fazer textos melhores... Se você perdeu seu tempo lendo meu texto, você pode ter gostado ou não, eu acho que não, mas depende de cada opinião.

Muito obrigado, se existe outros universos ou não, eu que não posso provar a você!

Hehehehe...

(Gabriel Peixoto)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007


Este texto compreende uma tentativa frustrada d'uma resenha crítica. Desculpe-nos pela injúria de fazer-vos submeterem-se a tal desgosto, posto que, como último alento, minha real intenção seja oferecê-la como alvitre de uma referência a não ser copiada.
Deleitem-se.

Jorge Moreira Peixoto jr.


Na obra “O preço da riqueza”, o autor, mais especificamente no capítulo I, objeto de tal resenha, evidencia a contradição intrínseca que há entre o desenvolvimento industrialista e predatório; e o meio ambiente e sua capacidade de renovação. Ele busca, com dados atuais e argumentos bem fundamentados, dar o alicerce necessário para o desenvolvimento dos argumentos que engendram uma conceituação bem articulada do modo de produção capitalista, dos problemas ambientais gerados por este e das alternativas energéticas renováveis e não-poluentes.
O tema é eminentemente atual já que, hoje, a Terra está num elevado grau de entropia, como se refere o autor ao nível de desorganização ecológica e ambiental do nosso planeta: “... os recursos naturais, uma vez utilizados no processo de desenvolvimento, não estarão disponíveis uma segunda vez para estratégias de desenvolvimento...”. Ou seja, a demanda da sociedade por determinada oferta de bens, que implica aplicação, na produção, de recursos naturais, não encontra correspondência na natureza num nível em que haja um processo de renovação completa desta (no que tange aos recursos naturais renováveis). Dessa forma, o nível de industrialização é sempre inversamente proporcional à diversidade ecológica e diretamente proporcional ao nível de entropia, pressupondo o sistema capitalista.
Há outro ponto relevante referente à utilização de fontes renováveis e não-poluentes de energia – solar, eólica – como alternativas aos combustíveis fósseis, poluentes e não-renováveis, na produção industrial. A energia solar é ainda pouco competitiva em relação às outras fontes de energia, devido ao seu alto custo de instalação, manutenção e sua baixa capacidade de armazenamento. Assim, torna-se preferível, com o fim de manter um baixo custo de produção, a utilização de recursos naturais não-renováveis, mais baratos e em abundância no mercado. Esse é o maior problema encarado pelos ambientalistas.
De acordo com o Teorema de Coase, os custos de transação provenientes de externalidades de produção negativas poderiam ser facilmente reduzidos se fossem delegados os direitos de propriedade a quem os considerassem mais valiosos, atingindo-se o nível ótimo de poluição. Na obra, o autor omite-se dessa perspectiva de análise, o que constitue-se numa falha de abordagem do mesmo.
Por fim, no geral, a obra mostra-se bem consistente em sua finalidade que é trazer uma abordagem conceitual dos problemas que norteiam as relações entre a Humanidade e o meio ambiente; dos contratempos presentes entre o modelo de produção industrial e a alocação de diferentes tipos de fontes energéticas; dos custos sociais gerados por esse modelo, onde um mundo desenvolvido enseja pobreza em nível correspondente, enfim, o campo investigado é bastante amplo e bem profundo. A leitura da obra é importante pois põe em pauta a problemática do meio ambiente que é muito relevante para que nós, seres humanos, tenhamos consciência dos problemas que nos afetam ou podem nos afetar, a curto ou a longo-prazo.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Imensurável poder


Vosmicê já indagou sobre os limites e a imensurável capacidade de expansão e inflação da vaidade, do capricho e da "volubilidade" humana? Pois é, meu caro. Receio informar-lhe que não existem, aqueles. Se você já se surpreendeu quando ouviu falar d'uma criatura que se submeteu a um transplante de rosto, ou d'outra que tatuou-se 97,5% do corpo com imagens de incontáveis e indistingüíveis diferentes espécies de borboletas, não o faça mais.
O ser Humano é um semovente dialético, acima de tudo. A sua existência está substancialmente, intrinsecamente, peremptoriamente e nucleicamente vinculada à contradição. Mas não a uma simples contradição, por vezes equivocadamente conceituada como sinonímia de ambigüidade ou de uma mera dicotomia. A contradição presente no bojo da História da Raça Humana está no conflito entre a vida e a morte. Veja bem, caro leitor; observe que tal conflito é "indescusturável"; as ligações de ponto de hidrogênio, nem elas esboçam a leviandade da comparação. Na relação vida/morte, a contradição é interna; não há vida sem morte e vice-versa; os dois conceitos são indissolúveis entre si.
Dessa forma e diante dessa conclusão(que, por grande parte da população, é absolutamente ignorada) os seres humanos buscam preencher a ausência de sentido da vida e afagar as dores desse vazio dedicando-se ao que atribuem tanto melhor para si. Uns dedicam-se à produção de cenouras, outros à produção de alimentos enlatados; alguns tantos dedicam a vida à perscrutação dos hábitos sexuais dos ornitorrincos, ao sadomasoquismo, à xenofobia e ao ódio à etnias diversas, ao futebol, à autoflagelação, ao desvio de verbas públicas, à religião e à peregrinação, a meter-se a ler Karl Marx traduzido para o português, à publicação de excrementos e excreções, respectivamente, repleto de solecismos e anedotas de mau gosto, entre outras agressões à lingüa portuguesa, em "blog's" (as aspas tem duplo sentido) cujos leitores são pobres diabos desafortunados por serem coagidos a se submeter ao infortúnio de lerem textos de 5º categoria e estupefazerem-se nos labirintos de mentes regressas e ineptas, entre outros "passa-vida", convictos de estarem fazendo a coisa certa, já que a convicção é a pior das negações da razão e da mutabilidade da realidade e a melhor das ilusões.
Por fim, é nessa poliversalidade infinitamente diversa que está o encantamento da natureza humana. Enqüanto a certeza não nos cerca a razão da vida, nem os especialistas desvendam-lhe o segredo.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Futebol é futebol


Eu não pude resistir. Há coisas nessa vida que são mais fortes que nós. Inclua ai nossas pernas e os nossos ímpetos, que por vezes são o que há de mais humano em nossas almas. Mais fortes que nós são também as nossas inclinações; e dentre essas, a que mais me compele a deitar aqui essas linhas é o futebol. Por outras vezes, contive-me a duras penas e resisti bem. Mas agora, como podeis ver, cedi a esse ímpeto e estou aqui. Dar-me-ei agora o aval e tomarei, por empréstimo, o ofício que é mais conhecido sob as palavras de Sócrates.
Falar sobre futebol é sempre complicado, principalmente quando consideramos o seu aspécto geral, os diferentes gostos e a capacidade desse esporte de unir os seres humanos, como não poderia ser sua outra função; a sua finalidade, em última análise: A diversão. Mas se formos um pouco mais indutivos, deixarmos um pouco de lado aqueles espinhos subjetivos de pura conotação antitética e buscarmos os verdadeiros fatos por detrás da realidade, terminaremos isso aqui num piscar de olhos. Deixe-me adiantar-lhe a labuta, leitora.
A questão é: o que há de destoar no futebol? O futebol em si, que dispensa outras denotações, ou o bom toque de bola, ou a qualidade técnica do jogador Fulano, ou a predileção do treinador Cicrano pelo esquema tático?
Antes de tudo, tenho que deixar claro que não há contradição evidente entre as alternativas. Absolutamente. Podemos ter um jogo com uma qualidade excelente de toque de bola e com a presença de diversas estrelas individuais - cuja função em campo é atrair a atenção do público com piruetas bem acabadas, da silueta à bainha -, sem que o futebol seja preterido.
Citando o inevitável e inevitado exemplo da seleção brasileira e sua experiência atual na Copa América e valendo-me de deduções práticas, leitora, tentarei agora explanar a real razão que me fez sentar-me ao computador, hoje.
O incremento de eficiência que a seleção recebeu com a saída de Anderson e Diego e a entrada de Júlio Batista é incoparável. Não se trata de qualidade técnica, de condição física ou simpatia pelo melindre de um futebol açucarado, como gostam alguns. Trata-se de futebol.
Não raro, ouvimos coisas da estirpe:
- A seleção argentina consegue ficar mais de dez minutos consecutivos com a posse de bola!
- Messi é um craque nato. Consegue driblar quantos adversários quiser e ainda faz gol de mão!
- O futebol espanhol é o melhor. É o mais cadenciado e tem mais brasileiros.
Comentários como esses são freqüentes e não mudam de freqüencia em nossos ouvidos. Quem perde com isso é o futebol. Não há que analisar esses detalhes que compõem o esporte e pô-los acima deste como Tétis para Adamastor, ou como o Fenômeno para Galvão. Afinal futebol é futebol e baitola é baitola.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

O Polegar de Terno



Alguém que por ventura se embarace nas tortuosas veredas das leis, que quase sempre regimentam as sociedades humanas, de fato precisará contratar – ou, para os lascados, solicitar ao estado – um [nem sempre] bom advogado.
Se você meteu os pés pelas mãos, não hesite; ele é o cara a ser chamado.
Logicamente, espera-se desses elementos, que encontrem portas secretas em becos sem saída; que troquem o dito pelo não dito, ou ajustem o mal dito aos termos deste primeiro; que façam contatos imediatos de terceiro, quarto, e até quinto graus com figuras convenientemente influentes; enfim, que façam e aconteçam, e se preciso for, façam até chover. Para tanto, estes ilustres elementos se preparam durante anos, esmiuçando ao cume os complexos conceitos e desdobramentos de páginas e mais páginas recheadas de artigos, parágrafos e incisos que compõem o inventário do sistema legislatório nacional. Este último, possuidor de um dinamismo tal que remete à vida (ao modo vegetal): incessantemente cresce, se ramifica, se modifica, se adapta, é podado e enxertado, tudo isso contribuindo para que os pobres advogados nunca deixem de estudar, exigindo que estejam em constante updating. Pobres advogados.
O irônico dessa história toda é que a estrada é de mão-única; para se agir dentro das conformidades da lei não é necessário estudá-la por anos a fio, bastando, para isso, seguir alguns poucos conceitos comportamentais convencionados como éticos, transmitidos pelas mais diversas entidades e meios – família, escola, igreja, TV (essa, nem sempre, é verdade), Os Dez Mandamentos, o Manual do Bom-mocinho da Tia Lulu, e por aí vai. Estes pequenos conceitos têm a conveniente vantagem de serem deriváveis – basta saber que não se deve fazer a outrem o que não se deseja a si próprio, para evitar um sem-fim de percalços judiciais, incluindo aí matar, roubar, estuprar, bater, etc. Essa versatilidade garante ao indivíduo, em sua singularidade, o poder de interagir com o sistema regulamentar sem intermediações, deixando assim de incomodar nossos estimados advogados.
Visto isso, me vem a dúvida: Porquê diabos então não criam um sistema de leis simples e derivável? Por acaso seria este um objetivo impossível de se alcançar, ou interessa aos maestros da sociedade que o sistema vigente se perpetue, apesar das falhas e inconveniências costumeiras?
Não sei... Penso eu que anos após “subir” à lua e descer às profundezas do mar, após computadores e aceleradores de partículas, e principalmente após o desodorante de spray, o homem tiraria essa de letra.
Mas, pensando bem, esse seria o holocausto dos queridos advogados. Oh não, que tragédia!
Já os vejo clamando: “Oh, e agora, quem poderá nos defender?”.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Conflito safado



Não, não quero resquícios ou sobras do que já se passou... Isso não valeria de absolutamente nada. A transitoriedade da vida não permite que sejamos os mesmos por mais de um dia sequer, nem que se queira isso não será possível. Os vários sentimentos ruins se dão por causa desse atraso, essa prisão cheia de ilusões que nos deixa cada vez mais distantes de quem verdadeiramente somos. A falta de possibilidade desse resgate torna a amargura muito mais evidente e esse mau sentimento desencadeia a falta de encantamento e afinidade com qualquer que seja a esperança de melhora dessa psique arruinada. Ora bolas, “acabou chorare”, e basta só um raiozinho de sol para que haja uma purificação total da alma, e vida nova, meu povo!!!


Por Menina do lido

Da maioridade penal


Você é a favor da redução da maioridade penal de 18 anos para 16? Por que? Quais vantagens e desvantagens, a curto prazo, poderemos colher se tal medida for aprovada pelo Congresso? E a longo prazo? Será esse o remédio que vai conter a violência no Brasil?
Bem. Essas e outras indagações você deve analisar antes de definir sua posição. Eu, sinceramente, não sei.
Não sei até onde a redução da maioridade penal seria benéfica ou maléfica para a sociedade civil. Não sei até que ponto essa singela alteração do Código Penal pode afetar as relações cambiais entre os traficantes e usuários de drogas, as trocas de gentilezas entre o assaltante(sacador) e o cidadão(sacado); a criminalidade em geral. Não sei o efeito psicológico que os apelos, traduzidos em demanda, do mais novo-velho político populista-estatólatra do cenário político nacional, o Governador do Rio de Janeiro Sr. Sérgio Cabral(PMDB), pela tal da redução, poderiam alterar o fluxo de corpos do IML, ou o contigente de exército reserva ou "mão-de-obra" ociosa de soldados do mundo do tráfico, ou em até que grau o ramo de segurança de aluguel poderia ser afetado por essa incerteza no abastecimento de "capital circulante"; enfim, não sei.
Faço questão de anotar aqui que tais linhas não passam de pura erupção conotativa, leiga e pseudo-intelectual por parte do meu cérebro mirrado - de ervilha -, que não deve ser levada a sério.
Mas, a minha proposta aqui não é analisar os efeitos práticos da redução da maioridade penal, apesar de ser óbvio que tal questão demanda uma reflexão mais profunda. Minha proposta detém-se num gomo dessa tangerina azeda e amarga e salgada, que me parece ser, por muitos, ignorada ou omitida.
Será que o jovem de 16 anos que estará sujeito a ser condenado pela justiça e cumprir uma pena de adulto, estará apto a realizar outros atos da vida civil consagrados aos adultos, absolutamente capazes? Será que esse ex-menor estará sempre sob a tutela dos seus responsáveis(no caso, os pais)? Será que aquele poderá obter sua carteira de habilitação, freqüentar motéis, boates, entre outros benefícios restritos somente aos absolutamente capazes?
Se for pra matar a árvore, derruba logo. As duas faces da moeda devem ser levadas em conta.
Se for pra ampliar o leque de obrigações e deveres dos menores de 18 e maiores de 16 anos, dever-se-ão equiparar os direitos concernentes a tal condição - de maior. O legislador deve considerar as modificações institucionais que essa proposta poderá causar, assim como um economista tenta prever como uma redução na oferta de crédito pode influenciar no consumo, ou como um escritor planeja cada linha e cada palavra em cada texto. Ainda assim eu acrescento, fugindo um pouco do foco, que mais uma vez o pragmatismo prepondera na política. Tal tendência é nada mais nada menos análoga àquela reação, por reflexo, que se dá quando uma mosca pousa-nos à face: "Uma tapa" segura right in the face. Mas a mosca foge; ela sempre foge.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

O panegírico do dinheiro


Hoje em dia, em qualquer esquina, ruela, bêco, enfim, até na casa do vizinho, pode-se encontrar uma instituição financeira, autorizada pelo Bacen (Banco Central) , disposta à generosa e penosa atividade de recolher recursos de investidores propensos a tal finalidade(poupadores) e repassá-los à pessoas físicas ou jurídicas(tomadores) que estejam predispostas a aplicar o seu quinhão em atividades produtivas, incrementando as bojudas curvas do nosso PNB; destinar essa verba ao mero consumo(poupança negativa), ou à especulação, enfim, atualmente há infinitas opções de aplicações disponíveis para aqueles que poupam o dinheiro e para aqueles que o tomam.
A estruturação e o desenvolvimento de toda essa parafernália só foi possível graças à revolução de 64 e a modernização do SFN (sistema financeiro nacional) - procuro aqui trazer algumas abreviações didáticas para poupar-lhe, leitor, de uma leitura cansativa.
Antes dessa, as coisas eram bem diferentes. A principal bolsa de valores do Brasil, a Bovespa, limitava-se a atuar como mera entidade oficial corporativa, vinculada à secretaria de finanças do Governo estadual de São Paulo, e era composta por corretores nomeados pelo poder público. As atividades de emissão, controle de liquidez do meio, recolhimento do compulsório e concessões de empréstimos de redesconto, de Banco Central, estavam divididas entre o Tesouro, o Banco do Brasil e a SUMOC(Superintendência da Moeda e do Crédito), colocando o Brasil umas centenas de posições abaixo no ranking de preferência do capital estrangeiro.
Após a implementação da reforma, projeto do ex-presidente do Banco do Brasil, Correia e Castro - que já perambulava pelo congresso desde o tempo em que as mulheres ponderavam se deviam permanecer em casa e entreter-se a bordar longas peças de cama e mesa, variando entre as técnicas de ponto cheio e ponto de cruz, ou curtir os embalos de sábado à noite -, O SFN passou por um intenso processo de especialização, modernização e adaptação ao cenário internacional especulativo. E é claro que a sua principal figurinha, conhecida da Islândia à Patagônia, Do Alaska ao Yang-tsé, não poderia ficar fora dessa... O Banco.
O Sistema bancário passou por um processo de expansão latente. A clássica carteira de investimento comercial juntou-se à de desenvolvimento e à de investimento. Dessa forma, as opções de aplicações foram triplicadas, senão quadruplicadas. Operações de Leasing, Factoring, Hot money de assistência a pessoas jurídicas que querem fugir de situações de baixa liquidez e até mesmo de insolvência, ganharam consistência e credibilidade no mercado. Para pessoas físicas as opções de títulos de capitalização, fundo de investimento, títulos de CDB e RDB, constituem diversificadas formas de remunerar seu capital ocioso e, para os bancos, formas de alavancar suas carteiras de empréstimos.
No entanto, essa especialização do SF provocou o que os economistas modernos chamam de Assimetria de informação, ou seja, imperfeições do mercado decorrentes do desequilíbrio de informações entre os agentes econômicos. Assim, para quem não conhece os trâmites do mercado financeiro, investir torna-se uma boa dor de cabeça. TAC pra lá, TR pra cá, TBF aculá, Taxa de amortização, taxa SELIC, taxa do caralho a quatro...
Da mesma forma, pessoas com leves distúrbios no fluxo elétrico por entre os neurônios, ou com excesso destes, com um imensurável deslumbre pela fortuna e pelo enriquecimento fácil acreditam que, mesmo diante desse quadro, suas idéias mirabolantes podem mesmo ingressar no mercado, assim como essas palavras agudas e desmedidas terminam esse texto.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Amarelado


O ano era 1999 e eu tinha entre 12 e 13 anos. Quando não tava na rua e a tv desapontava, surrava o tédio brincando de escrever...


Problemas


O fogo queima o interior
Fazendo transbordar a dor
A depressão toma conta do ser
E o corpo exausto tende a sofrer

Palavrões vêm à cabeça
Fazendo com que aqueça
A raiva em demasia
Pensamentos fazem parar
Depois chorar e lembrar
Dos problemas que sufocam

O inferno te procura
Para trazer amargura
E piorar tua morte

Mas se você for esperto
E se fizer tudo certo
Apenas sairá mais forte

segunda-feira, 28 de maio de 2007

I'm Forever Blowing Bubbles


I'm forever Blowing Bubbles - James Kendis, James Brockman and Nat Vincent


"I'm dreaming dreams,
I'm scheming schemes,
I'm building castles high.
They're born anew,
Their days are few,
Just like a sweet butterfly.
And as the daylight is dawning,
They come again in the morning.

Chorus

I'm forever blowing bubbles,
Pretty bubbles in the air.
They fly so high,
Nearly reach the sky,
Then like my dreams They fade and die.
Fortune's always hiding,
I've looked everywhere,
I'm forever blowing bubbles,
Pretty bubbles in the air."



Estou aqui, a perder-me em conjecturas emolientes, em deduções e induções sem conclusões, com o pensamento entrelaçado em devaneios semi-anímicos. Estou atracado num mar de desilusões.
O futuro é tão incerto quanto a certeza de um passado diferente. Diferente daquilo do que é hoje. Diferente do que poderia ser, hoje.
Um passado-presente que me atormenta, avilta-me; comprime-me pesadamente o peito tão violentamente que o faz expelir um muco meio avermelhado, meio azulado; roxo.
- Roxo?!
- Roxo, lilás, violeta...
Não quero que reconheças em mim a profunda amargura de uma vida levada dia-a-dia, hora-a-hora, minuto-a-minuto; em tons de roxo.
Romperei com o passado-presente. Futuro.
Nessas abstrações, um semblante...roxo...medido milimetricamente; de uma suscetibilidade angustiante.
O futuro e o passado-presente se estreitam numa relação quase que exclusivamente atribulativa, agoniante; roxa.

sábado, 26 de maio de 2007

Banquete de bezerro é leite



Não tenho merda nenhuma para dizer agora. Nenhuma. Mas, mesmo assim, tenho que honrar o compromisso de manter uma freqüência razoável de postagens. Que droga! Neste exato momento estou pensando em ter alguma grande idéia, dessas que afracam os músculos e tendões do leitor, criando brechas por onde esvaem elogios desbocados. Ou daquelas que, mesmo pobres no teor, dão gosto pelo melindre na condução das palavras. Não me vem nada à telha. Sendo assim, minha inércia produtiva enseja uma metalingüística consideração sobre as motivações de me expressar artisticamente – já que qualquer desgraça é dita arte – e, desde já, antecipo minha presunçosa intenção de estender tais considerações críticas a toda forma de criação artística, transformando - no que vêm a ser um autêntico pulo-do-gato - a minha completa incompetência criativa no objeto inspirador dessas e das posteriores linhas desse texto, que felizmente não serão muitas.
Numa primeira análise, a conclusão é óbvia: se não se tem nada a dizer, é melhor ficar em silêncio. Contudo, há controvérsias. No meu caso, por exemplo, não posso simplesmente deixar de escrever, pois como dito, me prontifiquei a fazê-lo e do contrário serei obrigado a aturar os resmungos e lamentações do criador deste blog, através do msn, que frequentemente utilizamos para trocar mp3 e ofensas. Não é difícil transferir o papel deste meu amigo a um diretor de uma gravadora – ainda que o primeiro seja insuperavelmente chato –, pressionando seus contratados a comporem novos sucessos do verão, exigindo que seus axônios e dendritos funcionem como circuitos programáveis, e que o fluxo de impulsos elétricos intercambiados entre seus neurônios obedeça a uma lógica externa, de modo que produzam arte como uma teta produz leite. São por vezes áusteros em espremer a teta. Defendem com afinco os interesses dos bezerros, que esperneiam em suas comunidades no orkut, sedentos por leite novo e puro. Sabem que os esfomeados bezerros pagam bem. E com esse caráter vigorosamente capitalista a produção artística ganha status industrial. Felizmente, para nosso deleite, todos os anos jorram incontáveis litros de leite. Vamos bezerros, vamos nos esbaldar!

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Figura de lingüagem


"Se exageras no pragmatismo, então não sabes a diferença entre a vida e a morte."

(Jorge Moreira Peixoto jr.)



Comumente ouvimos, nos mais diversos habitat’s que ocupamos, através dos mais variados meios de comunicação que existem, enfim, algures, a expressão: "Em minha opinião"; e suas efêmeras variações: "De acordo com minha formação cristã”, “segundo minha pessoa”, entre outras, formando o alicerce de textos verbais e/ou ortográficos, intencionando, dessa forma, dar à idéia uma credibilidade intangível, estática, não passível de crítica factual, lógica e material. Não obstante, o uso de falácias, analogias “capengas”, argumentações de eloqüência hipnotizante, abstrações obscuras, dentre outras modalidades, compõem o repertório estratégico empírico-ideológico-metafísico da consciência político-filosófica e cultural da sociedade, como um todo.
A revolução filosófica que ocorreu nos séc. XVIII e XIX foi responsável por salvar-nos da miséria da filosofia, das tendências do empirismo, da ideologia, da metafísica, do irracionalismo, do positivismo, e de outras porcarias pseudo-intelectuais que cerceiavam os debates e as controvérsias do meio acadêmico da Europa dos referidos séculos. Essa revolução foi provocada pelo renascimento da dialética - em fecundação desde o “fim” da idade média. Desde Diderot, com o livro “O sobrinho de Rameau”, passando por Hegel e a dialética espiritual, por Marx com o materialismo dialético, o pensamento dialético se desenvolveu e expandiu-se mundo afora, influenciando inúmeros intelectuais e a História de modo geral, munindo-nos de um novo instrumento de análise da realidade material.
Mesmo assim, o obscurantismo e a ideologia sobrevivem e reverberam mais fortes do que nunca – Em razão, em parte, da difamação sofrida pelo marxismo no mundo ocidental, acompanhada pela reafirmação do empirismo e do irracionalismo no séc. XX, entre outras. Com efeito, a demagogia, o paternalismo e o coronelismo permanecem cristalizados no bojo da sociedade civil brasileira; o movimento dialético da paciente análise das contradições internas dá lugar a práticas pragmáticas e muitas vezes equivocadas, alijando cada vez mais a filosofia do campo das decisões políticas mundiais.
Quem dera se o mundo fosse como nós o pensamos.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Teorista



Passou um gomo da sua vida
Brilhando os olhos pelo alheio
Julgou precoce a despedida;
Esticou a prosa com o receio

Deteve impulsos juvenis
Cingiu no peito marcação
Pondando a golpes infantis
O que medrou-lhe o coração

Tardou penoso no prefácio
A acumular saberes tantos
Visando as chances resumir
De tropeçar nos desencantos

Chegou treinado à largada
Porém pasmado foi dar fé
Que aprender como serão
Não é saber como já é

Tentou viver desilusão
A tropeçar dobrando o pé.

domingo, 29 de abril de 2007

Incoerência


Quem dera os seres humanos fossem dotados de olhos traseiros. Quero dizer, olhos na posição oposta, simétrica à posição "normal". Ah! Aí sim seríamos felizes. Seríamos cordiais, solidários e fraternos, uns com os outros. Não teríamos inveja nem tomaríamos o lugar alheio da fila do busú na Lapa. A ameaça iminente de extinção da vida na terra seria matéria apenas dos homonídeos metamorfos mutantes dos confíns da igreja universal e dos corretores imobiliários norte-americanos. 90% dos problemas sociais seriam solucionados com uma simples alteração na cadeia genética de nossas células. 99,95% dos problemas de tráfego pedestre também, por tabela, seriam providos. Salvador seria outra cidade, com transeuntes felizes, bem dispostos a consumir - não que o ritmo de aquecimento da economia(quase a congelar) venha a perder força, caso a Ciência não desenvolva uma fórmula que nos beneficie com a aquisição de mais um olho. A Lapa seria outra estação. A Avenida 7 de Setembro seria outra avenida. Tudo isso, só com mais um olho atrás da cabeça!
A cada vez que passo pela Avenida 7, sinto-me coagido por forças sobrenaturais a empurrar algum(a) infeliz no asfalto, no momento coincidente ao movimento do busú, de forma que seu coração seja esmagado sobre o asfalto e seu sangue escoe por toda a avenida, das Mercês à praça Castro Alves. Que Deus tenha piedade de mim, mas são impulsos que não posso controlar.
Mais exaltado eu fico ao notar a ocupação do passeio por aqueles miseráveis do mercado informal. E vai, vai, vai ocupando o asfalto, invadido estabelecimentos comerciais, entranhando becos e mais becos, maquiando profanamente a Avenida da independência. Tudo isso precisa de um basta.
- Basta!
Acho que foi pensando nisso, que o nosso ilustre prefeito Sr. João Henrique teve a "idéia" de transformar a Avenida 7 num calçadão, em detrimento do fluxo de veículos e dos pobres e miseráveis trabalhadores do mercado informal. É ai qu'eu sou obrigado a utilizar a técnica mais prezada e cultivada pelos alunos do ensino médio do Brasil: A incoerência.
Se isso - a idéia brilhante do nosso prefeito - for concretizado, milhares de ambulantes terão que procurar outro ofício para desenvolver, aqueles que o conseguirem.
Se é para o bem e a "saúde" da Avenida, a desinfestação dos ambulantes, que seja cumprido.
- Ei! E pr'aonde que vão os camelôs? Isso não está no repertório de políticas neoliberal do Governo Federal.
- Ah, eles é que vão pra puta que pariu!
Inevitavelmente, indubitavelmente e inequivocamente, esses pobres irão compôr as estatísticas das mais amplas matérias de convulsão social(violência, favelização, "mendigação", etc...).
A favor dos poderosos, opera a prefeitura. Logo após a entrega feita pelo presidente do Fórum Municipal para o Desenvolvimento Sustentável do Centro da Cidade, Haroldo Nuñez, de uma solicitação assinada por 68 empresários e 23 associações de comerciantes em que se pedia uma resposta rápida para o problema do acúmulo de ambulantes sem cadastro no centro soteropolitano, João Henrique anunciou que a via se transformaria num calçadão, em que o trânsito será restrito e os ambulantes teriam pontos específicos de atuação. Os desafortunados, não beneficiados por nenhum programa de assistencialismo social, estarão fadados a definhar à fome, longe da trading zone dos mais poderosos.
A orgia especulativa dos altos juros continua em ritmo galopante, enquanto a expansão, ou melhor, a retração do consumo, inversamente proporcional, conta agora com a contribuição do prefeito João Henrique.
tsc, tsc...

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O Mosaico




Agora há pouco, assistindo a uma conversa sobre a insegurança no Brasil, no Altas Horas, quietei a matutar aqui comigo, não sobre a questão da segurança – que é caótica, sabemos - mas sobre a forma como vejo, ou melhor, como sinto a “textura” do meu país. Imediatamente lembrei do divertidíssimo Google Earth; de como a gente começa vendo a imponente esfera azul, e mexendo no botãozinho [muito útil] de rolagem do mouse, vai mergulhando nos continentes, países, cidades, nossa própria casa (possivelmente até na casinha do cachorro). E vão aparecendo alguns nomes, contornos, fronteiras... Enfim, fui vendo as coisas desse jeito e aumentando o zoom. No Brasil, de cara vi uma gigantesca linha isolando o norte-nordeste do restante; algumas subdivisões, mas não reparei muito: mirei no meu estado – Bahia – e toquei para as cidades. Olhando aqui para Salvador, lá do alto, percebi uma outra linha. Dessa vez nascendo ali na Barra, correndo pela Graça, Vitória, contornando Ondina, abraçando a Pituba, sempre assim: ora beirando o mar, ora avançando continente adentro para abocanhar alguns condomínios, shoppings, hotéis, etc. Intrigou-me a idéia de eu não conseguir de forma alguma mesclar os lados apartados pela linha, tampouco assimilar as vidas dos indivíduos de um dos lados com as vidas dos indivíduos de outro. Era mentalmente impossível embaralhá-los, como se houvesse uma força incrível de repulsão divorciando-os. De fato, eles não queriam se misturar: o velho advogado, bem-sucedido, pai de três rapazotes, de modo algum queria ver o seu caçula indo curtir uma praia com os flanelinhas que ficavam ali na sinaleira da esquina, ainda que estes não lhe representassem ameaça alguma – pelo contrário: eram simpáticos, esforçados, e ainda faziam alguns favores quando solicitados, às vezes até pelo próprio advogado. Muito menos o pessoal do São Gonçalo enxergava com bons olhos a sossegada família que mandou construir a única mansão da rua, tão altiva frente às suas casotas humildes, de onde emergiam com seus carrões do ano a cada abrir e fechar do portão eletrônico, pairando assim no ar uma mesquinhez aguda.
Não que se odiassem – não era isso -, até queriam bem uns aos outros; o bem comum. Porém, não estavam dispostos a conviver, a conversar sobre suas rotinas [tão diferentes!], a ver seus filhos brincando juntos na areia enquanto tomavam uma refrescante cervejinha na praia, a se convidarem para as festinhas de aniversário em suas residências, a esquecer ainda que por alguns minutos o que os separava e focar no inverso. Não era esse o caso. Queriam apenas ser deixados em paz pelos vizinhos do outro lado da linha, em troca de deixá-los também em paz, desejando-lhes paz com um olhar piedoso, ou suplicando com um olhar aflito, a depender de suas circunstâncias - confusão de olhares essa que poderia dar lugar a um olhar intrépido de respeito.
Formavam, assim, um mosaico, muito interessante (mas quando visto do alto).
Tratei de tirar o zoom.

domingo, 15 de abril de 2007

Pé-de-cabelo

(Robert Colescott)

- Jesus! Puta que pariu! Que lâmina filha da puta!
Acho que foram essas, minhas palavras, ontem, enquanto raspava-me os pêlos da face. Lembro-me também de ter pensado naqueles homens "brasileiros"do séc. XIX , naqueles bigodes recheados de cera, laquê e anabolizantes de mandioca e naquelas longas barbas que quase os remetiam a seres sagrados.
Vieram-me à mente algumas lembranças de alguns indivíduos que, já há um tempo não eram trazidos à memória RAM do meu “hard brain”. Imagens como a de Fidel Castro – será que ele já se barbeou algum dia? – e sua eterna barba de condão; veio–me também a imagem(de fato) excêntrica de Schoppenhauer e sua barba invocada à moda “wolverínica” (quem sabe, à exemplo de Da Vinci, ele não tenha previsto o surgimento de uma criatura cuja a estrutura óssea seria composta de adamantium). Coitado, perdia tanto tempo barbeando-se que não lhe sobrava tempo para a leitura, razão a qual me faz presumir a origem e a causa da elaboração de toda aquela encheção-de-lingüíça.
Mas meu cable modem não parou por aí. Pensei também o quão somos infelizes - nós homens - por termos que nos barbear.
-Peraí! Que porra é essa?! Eu não tenho que me barbear se não o desejar - existe o tratamento à laser definitivo. Não tenho que seguir esse padrão pseudo-tenentista-positivista-ultranacionalista-enlatado- norte-americano social de estética. O que há de errado em ter alguns centímetros de capilaridade no queixo? Pois essa é a últi...
-Ai, que caralho, lâmina filha da puta...
E lá iam-se outras fraturas epiteliais.

domingo, 1 de abril de 2007

A relação do pobre com a pobreza.

“Os pobres são pobres, porque são pobres.”


Creio eu já ter ouvido isso por aí. Com certeza alguém com o mínimo de conexões neurônicas disponíveis para a atividade filosófica (que exagero), chegaria à essa máxima que reflete com bastante fidelidade o atual estado econômico que se encontra o mundo subdesenvolvido.
Qualquer um reconhece e corrobora a idéia de que para se investir no aumento da capacidade de produção, são necessários recursos (não é?).
Pois bem. São daí que decorrem todos os problemas de produção, abastecimento, consumo e tantos outros que afetam os países de terceiro mundo: A acumulação primitiva – ou a ausência dela.
O problema que afeta a produção do Sul econômico é inerente ao próprio modo de produção ao qual está inserido.
Grande parte das unidades produtivas só produzem o necessário ao seu próprio consumo, o que, a nível macroeconômico, não tem quase nenhum efeito. Dessa forma, não há geração de excedente e por tabela nem acumulação primitiva. Assim o produtor não poderá investir em máquinas e equipamentos (capital fixo), mão-de-obra (capital variável) nem em matéria-prima(capital circulante) para poder lançar-se ao mercado, adquirir novas riquezas e reproduzir seu capital.
Inseridos nesse contexto estão grande parte dos países subdesenvolvidos. Quase em completa estagnação econômica e cada vez mais distânte da porta que separa o mundo dos ricos do mundo dos pobres.